Afinal, o que é síndrome compartimental?


A recente operação de Dani Pedrosa para sanar, de uma vez por todas, seu problema de Síndrome Compartimental reacendeu o interesse pelo assunto, que é uma das mais temidas e discutidas condições entre os motociclistas.

dani-pedrosa arm open copyPilotar motos é uma atividade que exige muito mais do corpo humano do que em um carro. Na moto, o piloto faz parte da dinâmica da pilotagem e é até uma parte integrante da aerodinâmica do conjunto. Por isso, estar bem fisicamente não é apenas uma necessidade. É uma obrigação.

Pilotar no mais alto nível significa, portanto, forçar os músculos do corpo ao extremo, pois o estresse físico é enorme e as quedas… bem, elas fazem parte do ofício. Ou seja, são as condições ideais para o surgimento da Síndrome Compartimental, chamada de “Arm Pump”, em inglês.

A condição consiste no aumento de pressão no interior de um compartimento confinado e pouco expansivo, prejudicando o fluxo sanguíneo para as estruturas localizadas dentro dessa região. Quando há um inchaço ou sangramento, a fáscia, uma membrana que envolve os tecidos não consegue se expandir com a desenvoltura de antes.

O que é fáscia?

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Ilustração da “fasciotomia”, a cirurgia para remoção da fáscia.

Segundo o portal Rolfguid, fáscia são planos de tecido conjuntivo, organizados no corpo humano em camadas. Elas envolvem e separam os ossos, músculos e órgãos, preenchem os espaços e dão unidade à estrutura, ao mesmo tempo em que criam as condições necessárias para que cada segmento do corpo funcione de maneira adequada.

Desta forma, na Síndrome Compartimental, o fluxo sanguíneo para as células musculares e nervosas da fáscia é interrompido, danificando-as. Isso pode resultar em invalidez permanente do local afetado e até, em casos extremos, necrose tecidual, necessitando a amputação da região em questão.

De acordo com o  portal Infoescola, uma condição que geralmente é adquirida através de traumas, tais como: fraturas; compressão do membro por talas, gesso ou faixas; esmagamento ou isquemia de reperfusão após uma lesão; queimaduras; hemorragias e até infusão de medicação ou punção arterial.

Mick Doohan

Mike Doohan.

Existem dois tipos de Síndrome Compartimental: aguda, que é tipicamente decorrente de uma grave lesão; e crônica, também chamada de “Síndrome do Compartimento de Esforço”, esta sim decorrente do esforço extremo realizado pelos grandes atletas. Entretanto, esta não é considerada uma condição de emergência.

Talvez o caso mais clássico de Síndrome Compartimental na MotoGP seja o de Mick Doohan, em 1992. O australiano sofreu um sério tombo nos treinos para o GP da Holanda e sua perna direita foi fraturada em diversos lugares. Após a longa cirurgia, já era possível detectar os sinais, embora os médicos holandeses ainda não tivessem se dado conta.

“Eu tive que pedir para retirar as bandagens minhas pernas, pois tinha começado a sentir cheiro de carne podre. O médico estava falando com Cláudio Costa e começaram a discutir quando o médico disse que teria que amputar a perna se ela não melhorasse dentro de 24 horas.” (Mick Doohan)

Auxiliado por Cláudio Costa, o médico chefe da MotoGP na época, Doohan “fugiu” às pressas do hospital para fazer um tratamento longo, além de extremamente dolorido e tortuoso. Foi necessário fazer um inédito “enxerto de emergência”, ligando a perna direita à esquerda, para que o fluxo sanguíneo desta mantivesse a perna fraturada viva.

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Jorge Lorenzo foi um dos muitos a sofrerem com a Síndrome Compartimental.

O esforço valeu a pena: em 1994, Doohan se sagraria campeão pela primeira vez, numa sequência que só acabaria dali a quatro temporadas, resultando em cinco títulos seguidos.

O caso de Dani Pedrosa é diferente, no entanto. O espanhol sofre de Síndrome Compartimental crônica, em decorrência de duas cirurgias já realizadas na região do ombro direito. Uma delas, inclusive, aconteceu após colidir com o falecido Marco Simoncelli, na França, em 2011.

Nas últimas temporadas, Pedrosa estava relatando dormência e falta de sensibilidade, sintomas típicos, justamente no braço mais exigido para um motociclista, pois controla o acelerador e o freio. Contudo, o piloto da Honda manteve sua condição em segredo até logo após o GP do Catar desse ano.

O britânico Michael Laverty comentou sobre o assunto durante a primeira etapa da temporada 2015 do British Superbike: “é a coisa mais debilitante que você pode ter em uma moto“, disse o ex-piloto de MotoGP que agora lidera a equipe Tyco BMW no principal campeonato da Inglaterra.

“Você perde a sensação de seu manete de freio dianteiro e acelerador. Você ainda pode controlá-los, mas não com a mesma precisão. Você perde aquele feeling que é necessário para pilotar no mais alto nível. Eu li na declaração que Pedrosa teve a fáscia removida e não estou certo de que isso tenha recuperação, mas você está apto novamente em dez dias.” (Michael Laverty)

Dani Pedrosa cicatriz

Dani Pedrosa expõe os “ossos do ofício”.

Laverty ainda disse que resolver o problema é como tirar um peso dos ombros: “quando você faz a cirurgia e resolve o problema, é um peso tirado de seus ombros e quando você pode pilotar por 45 minutos sem pensar no braço, isso faz uma enorme diferença” garante.

Pedrosa tentou de todas as formas evitar a cirurgia na fáscia, fazendo uso de fisioterapia e outros tratamentos não convencionais. Como não deu certo, o espanhol precisou se submeter à uma fasciotomia, o nome de como é chamada o procedimento cirúrgico para que o fluxo sanguíneo voltasse ao normal.

O piloto assegurou ser atendido pelo doutor Angel Villamor, um dos melhores especialistas no assunto, na Espanha. Embora Pedrosa possa voltar a fazer qualquer atividade física “normal”, seu rendimento no mais alto nível, exigido pela MotoGP poderá ficar comprometido. Essa é uma resposta que apenas o tempo irá responder.


Sobre Lucas Carioli

Publicitário de formação, jornalista por opção, principalmente sobre o motociclismo, o único "ismo" que pratica. Quando não está escrevendo ou tocando rock, está perdido em alguma estrada com sua moto.

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