Como Neil Peart se transformou em um nome no motociclismo


A morte de Neil Peart, baterista da banda de rock Rush, anunciada nessa sexta-feira (10) foi um choque, não apenas para a música. Além de ser considerado um gênio em seu instrumento e um compositor/escritor prolífico, o lendário músico também era um motociclista dos bons. É essa história que você conhece aqui.

Nascido em 12 de setembro de 1952 em Hamilton, no Canadá, Peart começou a se interessar por instrumentos musicais logo cedo, aos 10 anos de idade. Inicialmente tentou o piano, mas seu talento nato estava nas baquetas. Seus pais diziam que ficava batucando por toda a casa e logo compraram um kit de bateria a ele.

Em 1974, após um período tentando se firmar como músico na Inglaterra, um frustrado Neil Peart voltou ao Canadá para trabalhar na loja de tratores do pai. No entanto, não muito longe dali, a então iniciante banda Rush não vinha muito satisfeita com seu atual baterista e chamou-o para um teste. O resto é história.

De bicicleta na África ocidental durante a turnê do álbum Counterparts, de 1993.

Peart não apenas assumiu as baquetas, como tornou-se a figura central da banda, o que não é muito comum em bandas de rock. Vinham dele as letras, o conceito por trás dos álbuns e potência sonora do grupo, que seus colegas Geddy Lee (baixo/vocal) e Alex Lifeson (guitarra) complementavam soberbamente.

Esse tipo de dinâmica só foi possível porque Peart era um cara com diversos e profundos interesses na vida. Literatura, história, filosofia, astronomia eram temas que dominava. As intermináveis turnês e a necessidade de manter-se em forma trouxeram-lhe o ciclismo, fonte de inspiração para o seu primeiro livro, “O Ciclista Mascarado”, de 1996. E a vontade incessante de conhecer os cantos mais remotos do mundo direcionou-o ao motociclismo. Era frequente que tomasse um caminho diferenciado dos colegas para os shows, pois ia de moto sempre que possível.

Em entrevistas, Peart explicou que sua paixão pelo ciclismo evoluiu para o motociclismo muito rapidamente. Disse que teve de tudo, de superbikes a scramblers, mas apaixonou-se mesmo pela versatilidade das Big Trails especialmente da marca BMW conforme pode ser visto em inúmeras fotos.


Utilizando o motociclismo para recuperar-se de uma tragédia

Em 10 de agosto de 1997, a primeira filha de Peart morreu em um acidente de carro, quando tinha apenas 19 anos. Como se não bastasse, sua mulher, Jacqueline Taylor sucumbiu a um câncer apenas 10 meses depois. Após um longo período sabático para lamentar e refletir, o baterista pegou sua moto e viajou extensivamente pelas Américas do Norte e Central rodando aproximadamente 88.000 quilômetros.

Quando retornou, Peart escreveu um livro sobre a sua jornada chamado “Ghost Rider – A Estrada da Cura”. Além contar parte de suas aventuras, a publicação também inclui uma variedade de temas relevantes e alguma filosofia visando ajudar aqueles que se encontram perdidos em suas vidas.

A viagem fez tão bem que quando retornou Peart era um novo homem. Além de ter casado novamente em 2000, voltou ao trabalho com o Rush no ano seguinte, quando gravou a música “Ghost Rider”, outra referência a sua jornada reveladora. “Quando estou andando de moto, fico feliz por estar vivo. Quando paro de andar de moto, fico feliz por estar vivo“, disse na época. Uma frase com uma profundidade incomparável.

Tocando e andando de moto pelo mundo

Peart com duas de suas paixões: moto e bateria.

Para poupá-lo do estresse das turnês, os colegas do Rush dispensaram-no de todas as obrigações sociais dali em diante, o que deu-lhe mais tempo para andar de moto. Foi o que fez durante os shows de comemoração aos 30 anos da banda, em 2004. O resultado foi outro livro, “Roadshow: Landscape with Drums: A Concert Tour by Motorcycle”.

Com nada menos do que 406 páginas, a obra detalha os 57 shows que eles fizeram em nove países diferentes. Peart percorreu 19 deles, 34.000 quilômetros sobre uma motocicleta. Depois considerou a turnê como “a maior jornada de todas na minha existência inquieta: a vida de um músico em turnê”.

Por volta de 2010, durante a turnê “Time Machine Tour”, que passou pela América do Sul, Peart veio com sua moto onde desbravou o continente sul-americano inclusive o Brasil. Na ocasião, chamou-lhe a atenção a quantidade de pedágios das estradas brasileiras: “são muito numerosos“, observou.

Na última década, contudo, o Rush precisou encerrar as suas atividades devido aos crescentes problemas físicos de Peart. Aos 60 anos, o baterista passou a sofrer com tendinite crônica e terríveis dores lombares, o que dificultava até sua rotina diária. Ainda assim, relatos de amigos próximos confirmam que o músico ainda andava de moto sempre que podia.

Em sua última entrevista, Peart comentou novamente sobre suas andanças de moto: “Quando estou em turnê e viajando entre cidades, tenho meia dúzia de encontros agradáveis ​​com as pessoas. Passei muito tempo em paradas de caminhões, lanchonetes e cafés, lugares muito descontraídos e de baixa qualidade, e esses são os encontros que tenho: de estranho em estranho, podemos dizer. Adoro o anonimato das minhas viagens“, explicou o músico.

Tímido, Peart também disse que gostava de viajar sozinho na maior parte do tempo, além de preferir caminhos alternativos: “Nos Estados Unidos, costumo andar sozinho, mas na Europa tenho um parceiro que passa meses na estrada comigo. E é um esforço imensamente planejado para ver tudo o que podemos“, revelou. “Evito autoestradas sempre que possível. As estradas que eu quero são as que as pessoas não percorrem, a menos que morem nelas“.

A aposentadoria oficial como baterista aconteceu em 2015, mas Peart manteve longe do conhecimento público uma doença muito mais grave, um câncer cerebral agressivo que o levou com apenas 67 anos na última terça-feira (7). Perdemos não apenas um extraordinário músico, fonte de inspiração de 10 entre 10 bateristas, mas também um motociclista, um humanista que realmente soube aproveitar essa coisa chamada vida.